segunda-feira, 19 de novembro de 2012

'MÃES OU FILHAS?KEM TEM RAZÃO?

Uma é mãe, a outra é filha. Uma, a extensão da outra, difícil destino que se entrelaça, revolta, recusa-se, esperneia, reflete-se, trapaceia. Uma é a outra amanhã, outra foi aquela ontem. Uma sabe, intui, adivinha o que a outra esconde, inverte, imita, finge que não é. Uma menina, outra mulher. Brincando de casinha de boneca, procurando estrela do mar, fazendo castelo, aprendendo a nadar. -Não quero comer, não quero. -Come os legumes, eu espero. Olha só o aviãozinho. Anda, vai logo, come, se não, o aviãozinho some! À noite a mãe conta história. A filha tem medo da bruxa. -Que maldade, mamãe, puxa! -Não tem que se preocupar! Branca de Neve caiu dura, mas chega o Príncipe e a coisa toda muda de figura! Se a mãe sai, a filha lhe deixa bilhetes presos na parede e fica esperando a mãe, balançando-se na rede. -Espera, não lê agora. Ainda não está na hora. Assim que a gente deitar, você pode começar. Saem, riem se completam. Não querem saber de ninguém. Ficam as duas muito bem. A mãe veste a blusa da filha, a filha, a saia da mãe. Mães e filhas refletidas numa inversão divertida. Mas a filha vai crescendo e a mãe nem vai percebendo. A mãe corta o cordão umbilical da filha quando nasce. A filha, quando adulta, corta os laços. A mãe, pra existir, se dá à filha. A filha, pra poder viver, a rejeita. Em que momento da vida deixaram de ser cúmplices? Quando é que pararam de se divertir? Contar histórias? Trocar de roupa, rir? Desde quando que a mãe chora? Quando é que a filha foi embora? Uma já viveu, ao seu modo o que a outra vive agora. A filha é a criança da mãe. A mãe, o super-ego da filha. A filha se enche de inpaciencia diante da mãe, a mãe, de dor pela filha. Ambos os sentimentos se extrapolam em ninharias ridículas. Uma fez isso, outra, aquilo. Uma agiu assim, outra assado. -Olha, mãe, tudo acabado. -Quem tem razão, as mães ou as filhas? A filha não agüenta mais nada. A mãe sempre agüenta mais uma. As dores são ondas que oscilam de intensidade. Uma ou outra mais forte, tira-lhe o fôlego, joga-a no chão. Nada que não a faça voltar à tona, ver de novo a onda verde, retomar a respiração. A filha nada contra a mesma maré que um dia embrulhou a mãe. A mãe estende-lhe a mão, delicada. A filha recusa, indignada.. -Me deixa nadar sozinha. Sempre a mesma ladainha... Quantas ondas grandes a mãe teve que furar? Quantas arrebentações driblar? Onde estará ela, a filha? Ali boiando, esquecida, e a mãe a se preocupar que se afogue, nas ondas verdes da vida. -Me empresta o carro pra eu ir à festa? -Por que não põe uma roupa mais transada, uma blusa decotada, um vestido de outro tom? Minha filha, não acredito: cê vai sair sem baton? -Ai, meu saco, vou-me embora. Dá pra me emprestar agora? -Depois dorme aqui, vê se come... -Esquece. Não quero ficar. -Pena...tinha tanta coisa pra contar... -Ora, mãe, pára de fazer drama. Ce quer mesmo é cair na cama... -Vai de novo viajar? -E você, me controlar? Saco! Ta mais que na hora! Escuta, mãe, vou-me embora.. -Não esquece de apagar a luz, fechar a porta...cuidado com a violência... -Ai, mãe, tenha paciência... Em cima da mesa um bilhete: “mãe, desculpe o mau humor, mas é que eu ando uma pilha!” Quem tem razão? As mães ou as filhas?

Nenhum comentário: